Sangha Virtual

 Estudos Budistas

Tradição do Ven. Thich Nhat Hanh

 

A pequena chama

 

Vamos juntos fazer uma meditação. Visualizando esta linha que representa o tempo. Temos uma forma dualista de pensar sobre o tempo e o espaço. Mas o tempo e o espaço intersão. Não se pode separar o tempo do espaço e vice-versa. Não se pode sequer separar a matéria do espaço, nem o espaço da matéria. Se tocarmos a natureza do interser, temos outra forma de pensar, que é o pensamento correto. Isso poupará muito tempo.

Suponhamos que tomamos um ponto do tempo como o nosso nascimento. Então acreditamos que começamos a existir apenas a partir do ponto B (nascimento), por exemplo. Assim, o segmento que termina em B representa o seu não-existir, o seu não-ser. Você não estava lá. Você começa em B e continua a existir a partir de B, e este segmento que começa a partir de B, chamamos de ser. Você continua a ser até chegar a um ponto chamado D (morte), por exemplo. Quando chega ao ponto D, você deixa de ser e entra novamente no reino do não-ser.

Este é o tipo de pensamento que muitos de nós temos. Acreditamos que nascer significa que, do nada, nos tornamos algo; de ninguém, nos tornamos alguém. A certidão de nascimento é uma prova dessa crença. Morrer significa que, de algo, nos tornamos nada; de alguém, nos tornamos ninguém. Isso é considerado pelo Buda como pensamento errado, visão errada. O pensamento errado vem da visão errada.

Quando meditamos sobre uma nuvem, podemos nos perguntar: O que é ela? Quando acontece o momento do nascimento de uma nuvem? Podemos falar sobre o nascimento de uma nuvem? O momento em que a nuvem passa do não-ser para o ser? Podemos ver claramente que, antes de se expressar como nuvem, ela já era outra coisa. Antes de se manifestar na forma de uma nuvem, ela era água no oceano, nos lagos, no calor do sol, no vapor, no orvalho. Portanto, não é verdade dizer que a nuvem veio do reino do não-ser. Não. É por isso que o aniversário é apenas um dia de continuidade. A natureza da nuvem é a natureza do não-nascimento, porque a nuvem não veio do não-ser para o ser.

Quando dizemos que a nuvem morreu porque já não a vemos, e acreditamos que a nuvem passou do reino do ser para o reino do não-ser, ficamos presos à nossa dor, porque a nossa querida nuvem já não está lá. Mas, na verdade, sabemos que uma nuvem não pode se tornar nada. Uma nuvem pode apenas se transformar em chuva, neve, granizo e assim por diante. Portanto, sabemos que a natureza da nuvem é a natureza da não-morte. Nem nascimento, nem morte.

Isso está em plena harmonia com a primeira lei da termodinâmica: Não há criação, não há destruição. Não há nascimento, não há morte. Se acreditamos que houve um começo do cosmos, podemos criar uma teoria como o Big Bang. Mas, se há um Big Bang, deve haver, mais tarde, um Big Crunch.

Ao olhar para a natureza da nuvem, vemos que a verdadeira natureza da nuvem é a natureza do não-nascimento e da não-morte. Assim, por baixo da verdade convencional de nascimento e morte, vemos o fundamento do não-nascimento e da não-morte. Isso não se aplica apenas à nuvem, mas a tudo o mais. A nossa natureza é a natureza do não-nascimento e da não-morte. Isso é uma concentração. A concentração que nos ajuda a tocar a natureza do não-nascimento e da não-morte.

Se conseguimos arrancar pela raiz a noção de nascimento e morte, arrancamos, ao mesmo tempo, a noção de ser e não-ser, porque nascer significa que, do não-ser, passamos a ser, e morrer significa que, do ser, passamos ao não-ser. Então, quando erradicamos a noção de nascimento e morte, erradicamos a noção de ser e não-ser. E é por isso que o Buda disse que a visão correta é o insight que está livre da noção de ser e de não-ser.

Quando falamos sobre Deus, temos de ter cuidado. Não devemos dizer que Deus existe, nem que Deus não existe, porque Deus é o último, o supremo. Não podemos atribuir a Deus a noção de ser ou de não-ser. Há teólogos que dizem que Deus é o fundamento do ser, como Paul Tillich. Mas podemos perguntar: se Deus é o fundamento do ser, então quem será o fundamento do não-ser? Portanto, dizer que Deus não existe é errado. Mas dizer que Deus existe também é errado, porque não podemos usar a noção de ser e não-ser para descrever Deus. Esse supremo é equivalente ao Nirvana. E o Nirvana é a ausência de todas as noções, incluindo a noção de nascimento e morte, de ser e não-ser.

Quando nascemos como uma pessoa, como uma nuvem, dizem que chegamos. Mas vamos brincar um pouco com a chama. Sabemos que a chama está em algum lugar, escondida em algum lugar. Podemos falar com a chama. Não se pode descrever a chama como sendo ou não sendo. Antes de se manifestar como uma chama, não se pode dizer que ela não existe ou que pertence ao reino do não-ser. E quando ela se manifesta como chama, também não se pode dizer que ela pertence ao reino do ser. Porque não apenas uma nuvem não pode ser descrita em termos de ser ou não-ser, não apenas Deus não pode ser descrito em termos de ser e não-ser, mas também a chama.

Então podemos dizer: “Minha querida nuvem, eu não acho que você pertença ao reino do não-ser. Você está no reino do interser. E quando as condições são suficientes, você se manifesta. Isso não é um nascimento, é apenas uma manifestação. Querida, você não é uma criação. É apenas uma manifestação, uma manifestação maravilhosa. E se não se manifesta nesta forma, se manifesta de outra forma. Querida, é possível que você morra? Se eu estiver atento, concentrado, ainda posso reconhecer sua presença de outra forma. Eu não devo chorar.”

Então já podemos falar com a chama. “Minha querida chama, eu sei que está aí em algum lugar, manifeste-se para nós”, e a chama responde: “Querido Thay, querida Sangha, eu estou pronta para me manifestar para vocês. Todas as condições parecem estar suficientes, exceto a última.” Então nós fornecemos à chama a última condição, e ela se manifesta, tão bela. E eu gostaria de perguntar à chama: “Minha querida e bela chama, de onde você veio?” Isto é sobre vir e ir. E a chama responderá assim: “Querido Thay, querida Sangha, eu não vim de lugar nenhum. Minha natureza é o não-vir. Não vim do sul. Não vim do norte. Não vim do leste nem do oeste. Minha natureza é o não-vir, o não-local. Quando as condições são suficientes, eu me manifesto.” E sabemos que a chama nos disse a verdade. A sua natureza é o não-vir.

E podemos perguntar: “Querida chama, sentimos sua falta. Para onde você foi?” E a chama responderá: “Querido Thay, querida Sangha, eu não fui para lugar nenhum. Não fui para o sul, nem para o norte, nem para o leste, nem para o oeste. Quando as condições já não são suficientes, eu paro a manifestação para me manifestar de outra forma.” E isso é verdade. Se observarmos, veremos que, durante a sua breve manifestação, ela tomou muitas formas. Assim como, durante a nossa breve manifestação nesta Terra, criamos pensamentos, palavras e ações.

Durante aqueles poucos segundos, a chama criou uma bela imagem que penetrou em todos nós. A chama gerou calor que entrou no cosmos. A chama gerou fumaça, que subiu e se tornou parte da nuvem. Portanto, ela continua pelas suas ações. Durante sua breve manifestação, produziu ações e continua em nós e ao nosso redor. Nada se perde. Então a chama não morreu. A chama continua sempre para aqueles que sabem meditar. Portanto, não apenas Deus, não apenas a nuvem, não apenas a chama têm a natureza do não-nascimento e da não-morte, mas essa verdadeira natureza é o não-vir e o não-ir.

Agora chegamos ao quarto par de opostos: a semelhança e a alteridade. Temos uma segunda chama. E perguntamos a essa chama se ela é a mesma que a outra, ou se é uma chama diferente. Se deixarmos a vela acesa e sairmos por 15 minutos, quando voltarmos, podemos fazer a mesma pergunta: “Você é a mesma chama que vi quando saí? Ou é uma chama diferente?” Essa é a pergunta que podemos fazer, e a chama nos dirá: “Querido Thầy, querida Sangha, eu não sou nem a mesma chama, nem sou totalmente uma chama diferente.” Essa é a resposta. Nem a mesma chama, nem uma chama diferente. Essa é a doutrina do Buda, essa é a doutrina do Caminho do Meio, para transcender a noção de semelhança e alteridade. Assim tocamos a natureza do não-eu.

Quando olhamos para um álbum de fotos e vemos uma imagem nossa aos três anos de idade, vemos aquela criança tão vulnerável, tão frágil. Em perguntamos a nós mesmos: somos a mesma pessoa daquela criança? E a resposta é a mesma. Não somos a mesma pessoa, porque somos tão diferentes. Crescemos, tornamo-nos adultos. Nosso corpo, nossos sentimentos, nossas formações mentais, nossas percepções são completamente diferentes. Então não somos a mesma pessoa daquela criança. Mas também não somos uma pessoa diferente, porque somos a continuação daquela criança. A realidade é que tudo é impermanente. Nada pode ser o mesmo em dois momentos consecutivos. Por isso, embora não sejamos os mesmos, também não somos totalmente diferentes.

Assim, o Nirvana é a verdade última. Transcende todos os tipos de noções, incluindo as noções de ser e não-ser, de nascimento e morte, de vir e ir, de semelhança e alteridade. Se não deixarmos ir essas noções, nunca poderemos tocar o supremo e tocar o supremo nos liberta do medo. O medo de nascer. O medo de morrer.

(Palestra de Dharma de Thich Nhat Hanh em 16 de outubro de 2013 – transcrito do vídeo do YouTube

https://youtu.be/kluOp9d4JX8)

Traduzido por Leonardo Dobbin)

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