Sangha Virtual

 Estudos Budistas

Tradição do Ven. Thich Nhat Hanh

 

Como não discriminar?

 

Pergunta: Como eu reconcilio a disparidade de ser apegado a alguém que eu tenho afeição e, portanto, favorecer sua vida pela de outra pessoa. Acho que falo por muitos amigos quando digo que não apenas tenho grande respeito por você e pela comunidade monástica, mas também grande afeição por você. Se eu tivesse o privilégio de caminhar com você ou qualquer monge nesta bela floresta e esse monge fosse atacado por um animal, eu o impediria, e talvez tivesse que matá-lo. Se esse monge fosse atacado por um homem, eu o impediria, e talvez tivesse que matá-lo. E então isso é discriminação? Tenho apego a você por causa do meu afeto. Desejo profundamente aceitar a transmissão dos 14 Treinamentos, e não tenho ideia de como reconciliar essa disparidade.

 

Thay: Quando você tenta proteger o planeta Terra, fazendo o que você puder fazer, isso é apego ou não? Apego à Terra. No budismo os praticantes falam de igualdade, equanimidade e não discriminação. Mas também falamos sobre investimento.

 

No Sutra de 42 capítulos, é dito que alimentar uma boa pessoa é igual a alimentar cinco pessoas que não são boas o suficiente. Quando você alimenta e mantém uma boa pessoa viva essa pessoa pode fazer mais bem ao mundo do que cinco pessoas que não são boas. Entende? Então há não-discriminação, mas também há uma espécie de senso de investimento. Você investe no bem, nas coisas positivas para o bem de todos, incluindo aquele que parece ser o objeto de discriminação.

 

Quando você pode salvar a vida do Buda, ou salvar a vida de um pirata do mar, você tem a escolha de salvar o Buda primeiro. Porque se você salvar a vida de uma pessoa, você salva apenas uma vida, mas se você salvar a vida do Buda, o Buda que você salvou salvará muitas vidas. Esse é um senso de investimento na tradição budista. Isso pode ser visto como discriminação, mas dentro disso, há inteligência.

 

É como a prática da Diligência Correta. Você não discrimina as formações mentais negativas. Você sabe que elas são úteis à sua maneira. Mas você favorece as boas sementes e quer que elas tenham mais chance de se manifestar. Isso é inteligência e não discriminação.

 

Quanto à ação, ação não violenta, ação compassiva, ela nunca pode ser absoluta. Quando você se torna vegetariano, você tem a intenção de evitar matar animais pela carne. Mas quando você cozinha vegetais, muitos microrganismos também morrem. Então, seu prato de vegetais cozidos não é inteiramente vegetariano. Entende? Nada é absoluto. Mas, ao comer vegetariano, é mais compassivo do que comer carne de animais.

 

Então, há um grau. Quando você impede um assassino de matar, há muitas maneiras de prevenir. Se você tem uma arma e precisa atirar nele, talvez prefira atirar na perna em vez de na cabeça. Se você puder fazer o contrário e não usar sua arma, é melhor.

 

Se você souber Kung Fu, você pode não precisar usar sua arma, mesmo se você tiver uma arma. Um policial fica muito feliz em saber que pode carregar suas armas com plena consciência. Ele sabe disso e espera nunca ter que usar sua arma.

 

Então, pode-se matar com compaixão, é claro. Mas apenas grandes seres podem fazer isso. Se você é uma pessoa motivada pelo medo, pela raiva, é muito diferente. Mas é sempre possível evitar a violência e conduzir a operação de resgate de forma a causar o mínimo de dano. Mesmo se você for um general do exército, e se tiver que conduzir uma operação militar, terá que usar armas e soldados. Mas se você tiver compaixão em seu coração, sua maneira de conduzir uma operação evitará matar civis inocentes e assim por diante. Portanto, há um grau de violência e não violência, e você deve ser habilidoso e compassivo. O importante é que você tenha compaixão e inteligência dentro de si.

 

(Palestra de Darma de Thich Nhat Hanh: em 9 de outubro de 2011– transcrito do vídeo do YouTube

https://youtu.be/xr7rCIvIJIk)

Traduzido por Leonardo Dobbin)

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