Sangha
Virtual
Estudos Budistas
Tradição
do Ven. Thich Nhat Hanh
Lembran�as da Inf‰ncia
Quando eu tinha quatro anos, minha m‹e costumava me trazer um biscoito toda vez que ela voltava do mercado. Eu gostava de ir para o jardim da frente e passar o meu tempo comendo, ˆs vezes levando meia hora ou quarenta e cinco minutos para comer um biscoito. Gostava de dar uma pequena mordida e olhar para o cŽu. Ent‹o eu tocava o c‹o com meus pŽs e dava outra pequena mordida. Eu apenas gostava de ficar l‡, com o cŽu, a terra, os bambus, o gato, o cachorro, as flores. Eu era capaz de gastar tanto tempo comendo meu cookie porque n‹o tinha muito com o que me preocupar. Eu n‹o estava pensando no futuro, n‹o estava lamentando o passado. Eu estava morando inteiramente no momento presente, com o meu biscoito, o cachorro, os bambus, o gato e tudo.
ƒ poss’vel comer as nossas refei�›es t‹o lentamente e alegremente como eu comia o biscoito da minha inf‰ncia. Talvez voc� tenha a impress‹o de ter perdido o biscoito de sua inf‰ncia, mas estou certo de que ele ainda est‡ l‡, em algum lugar em seu cora�‹o. Tudo ainda est‡ l‡, e se voc� realmente quiser, voc� pode encontr‡-lo. Comer conscientemente Ž uma pr‡tica das mais importante de medita�‹o. Podemos comer de uma forma que possamos trazer de volta ˆ vida o biscoito da nossa inf‰ncia. O momento presente Ž cheio de alegria e felicidade. Se voc� estiver atento, voc� vai v�-lo.
A vida no Vietn‹ quando eu era jovem era bem diferente da maneira como Ž agora. Uma festa de anivers‡rio, uma leitura de poesia, ou o anivers‡rio da morte de um membro da fam’lia duraria o dia inteiro, n‹o apenas algumas horas. Voc� poderia chegar e sair a qualquer momento. Voc� n‹o precisava ter um carro ou uma bicicleta - voc� apenas andava. Se voc� morasse longe, voc� partia no dia anterior e passava a noite na casa de um amigo ao longo do caminho. N‹o importa quando voc� chegasse, seria bem recebido e seriam servidos alimentos. Quando as quatro primeiras pessoas chegavam, seriam servidas juntas em uma mesa. Se voc� fosse o quinto, esperaria atŽ que tr�s outros viessem para que voc� pudesse comer junto com eles.
A palavra "lazer" em chin�s Ž escrita com o caractere para porta ou janela. Dentro da porta ou da janela, h‡ o car‡ter para a lua. Isso significa que voc� s— est‡ realmente em lazer se voc� tem tempo para ver e desfrutar a lua. Hoje, a maioria de n—s n‹o tem esse luxo. Temos mais dinheiro e mais conforto material, mas n‹o estamos muito felizes porque simplesmente n‹o temos tempo para desfrutar da companhia um do outro.
Existe uma maneira de viver nossa vida cotidiana que transforma a vida normal em uma vida espiritual. Mesmo coisas muito simples, como beber ch‡ com aten�‹o pode ser uma experi�ncia profundamente espiritual, que pode enriquecer nossas vidas. Por que as pessoas gastam duas horas apenas bebendo uma x’cara de ch‡? Do ponto de vista empresarial, isso Ž uma perda de tempo. Mas o tempo n‹o Ž dinheiro. O tempo tem muito mais valor do que o dinheiro. O tempo Ž vida. O dinheiro n‹o Ž nada comparado com a vida. Em duas horas bebendo ch‡ juntos, n‹o conseguimos dinheiro, mas conseguimos vida.
Quando eu era um menino de sete ou oito anos, vi um desenho do Buda na capa de uma revista budista. O Buda estava sentado na grama, muito pacificamente, e fiquei impressionado. Eu pensei que o artista deveria ter muita paz e calma dentro de si mesmo para ser capaz de desenhar uma imagem t‹o especial. Apenas olhar para o desenho me fez feliz, porque tantas pessoas ao meu redor naquele momento n‹o eram muito calmas ou felizes.
Vendo esta imagem pac’fica, eu quis tornar-me alguŽm como esse Buda, alguŽm que poderia sentar-se muito quieto e calmo. Acho que foi o momento em que eu primeiro quis me tornar um monge, embora eu n‹o soubesse como descrev�-lo dessa forma na Žpoca.
O Buda n‹o Ž um deus; Ele era um ser humano como o resto de n—s. Como muitos de n—s, ele sofreu muito quando era adolescente. Ele viu o sofrimento em seu reino e viu como seu pai, o rei Suddhodana, tentou reduzir o sofrimento ao seu redor, mas parecia estar indefeso. Para o jovem Siddhartha, a pol’tica parecia ineficaz. Mesmo quando adolescente, ele estava procurando uma maneira de sair do sofrimento. Embora tivesse nascido pr’ncipe, todos os confortos materiais n‹o eram suficientes para faz�-lo feliz, em casa ou em paz. Ele saiu do pal‡cio onde foi criado, a fim de encontrar uma sa’da para o sofrimento e encontrar seu verdadeiro lar.
Eu acho que muitos jovens hoje sentem o mesmo que o jovem Siddhartha. Estamos ˆ procura de algo bom, verdadeiro e bonito para seguir. Mas olhando em volta podemos n‹o encontrar o que estamos procurando e ficamos desiludidos. Mesmo quando eu era muito jovem, tinha esse tipo de sentimento em mim. ƒ por isso que, quando vi o desenho do Buda, fiquei t‹o feliz. Eu s— queria ser como ele.
Eu aprendi que se praticasse bem, poderia ser como um buda. Qualquer pessoa que seja pac’fica, amorosa e compreensiva pode ser chamada de Buda. Havia muitos budas no passado, existem budas no momento presente e haver‡ muitos budas no futuro. Buda n‹o Ž o nome de uma pessoa em particular; Buda Ž apenas um nome comum para designar qualquer pessoa que tenha um alto grau de paz e que tenha um alto grau de compreens‹o e compaix‹o. Todos n—s somos capazes de sermos chamados por esse nome.
(Trecho do livro de Thich Nhat Hanh Ð At Home on the World)
(Tradu�‹o Ð Leonardo Dobbin)
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