Sangha Virtual

 Estudos Budistas

Tradição do Ven. Thich Nhat Hanh

 

Não Rejeitar o Mundo ou a Sociedade

 

O Buda ensinou: “Eu vou ensiná-los o que eu quero dizer por ‘conhecer a  melhor maneira de viver sozinho’.”

 

Não persiga o passado

Não se perca no futuro

O passado não mais existe

O futuro ainda não veio.

Olhando em profundidade para a vida como é

Neste exato aqui e agora,

O praticante habita

Na estabilidade e liberdade.

Precisamos ser diligentes hoje.

Esperar até amanhã pode ser tarde demais.

A morte vem inesperadamente.

Como podemos barganhar com ela?

Um sábio chama uma pessoa que sabe

Como morar na plena atenção

Dia e noite

“Aquele que sabe

A melhor maneira de viver sozinho.”

 

(Do sutra sobre a Melhor Maneira de Viver Sozinho)

 

 

 

 Viver sozinho não significa rejeitar o mundo e a sociedade. O Buda disse que viver sozinho significa viver no momento presente profundamente observando o que está acontecendo. Se fizermos isso, não seremos arrastados ao passado ou levados por pensamentos sobre o futuro. O Buda disse que se não pudermos viver no momento presente, mesmo se estivermos sozinhos na mais remota floresta, não estaremos realmente sozinhos. Ele disse que se estivermos plenamente vivos no momento presente, mesmo se estivermos em uma populosa área urbana, podemos ainda dizer que estamos vivendo sozinhos.

 

Os meditadores budistas sabem da importância da prática em uma comunidade. Isto é o significado da frase: “Eu tomo refúgio na Sangha”. Um provérbio vietnamita diz: “A sopa está para a refeição assim como os amigos estão para a prática.” Estar em contato com uma comunidade, aprender dos seus membros, e tomar refúgio nela é muito importante. Descobrir o caminho de estar sozinho em uma comunidade de prática é algo que precisamos fazer.

 

O monge Thera era parte de uma comunidade de prática, mas ele estava determinado a viver sozinho. Ele acreditava na idéia de uma vida solitária, porque em algum momento ele ouviu o Buda recomendando a prática da vida solitária. Portanto ele manteve distância de todos os outros na comunidade. Ele ia pedir comida sozinho, ele voltava sozinho, comia sozinho e meditava sozinho. Ele era como uma gota de óleo em uma bacia de água, incapaz de se misturar com seus companheiros praticantes. Por isso, os outros monges pensavam que havia algo anormal com ele, e eles expressaram sua preocupação ao Buda.

 

O Buda era muito generoso. Ele não criticou Thera. Ele apenas disse que o modo de Thera viver sozinho não era a melhor forma de fazer. Como muitos outros monges estavam presentes, o Buda aproveitou a oportunidade de ensinar a Thera a melhor maneira de viver sozinho – um modo no qual é ainda possível se  associar com os demais monges, aprender e tomar refúgio neles.

 

Havia monges que eram o oposto de Thera e que sempre se juntavam em pequenos grupos e desperdiçavam seu tempo em conversas e brincadeiras. Sua conversa não era sobre os ensinamentos e o Buda frequentemente os repreendia. Há histórias nos sutras nas quais o Buda alertava ou expressava sua desaprovação aos monges que agiam de uma maneira barulhenta e indisciplinada, sem saber como manter mente e corpo sob controle, sem saber como gastar seu tempo de maneira útil praticando meditação caminhando e sentada e observando profundamente as coisas como elas são no momento presente.

 

Quando eu me tornei um monge, meu mestre me deu uma cópia do livro, “Palavras de Disciplina do Mestre Quy Son”. Eu nunca esqueci as sentenças nas quais o mestre Quy Son repreendia praticantes que, depois da refeição do meio-dia, se juntavam em pequenos grupos e falavam sobre coisas sem importância. Os conselhos de Quy Son frequentemente voltavam a mim e serviam como um lembrete.

 

Quando vivemos em uma comunidade de prática, deveria haver pelo menos uma ou duas pessoas que servem como modelo. Às vezes apenas precisamos observá-los em pé, andando, falando ou sorrindo em plena atenção. O fato de sabermos a “melhor maneira de vivermos sozinhos” não evita que desfrutemos e nos beneficiemos da presença dessas pessoas. Pelo contrário, é porque sabemos “a melhor maneira de vivermos sozinhos” que temos a habilidade de observá-los profundamente e os apreciar.

 

Estar em contato não significa apenas falar com a outra pessoa. Quando estamos em contato com o céu azul, por exemplo, as nuvens brancas, o salgueiro verde, ou a rosa, nós não nos comunicamos com eles apenas através de palavras. Reconhecemos e aceitamos estas coisas, e sentimos seu calor. A confiança brota em nós e aprendemos muito da sua presença. Desta maneira estamos aptos a lucrar da terceira jóia, a comunidade de prática.

 

Se praticarmos “a melhor maneira de vivermos sozinhos” e passarmos a maior parte do tempo praticando meditação sentada e andando em silêncio, nossa presença dará uma real contribuição para a comunidade. Diferentemente do monge Thera ou dos monges que se reuniam depois das refeições para falar de coisas que não eram importantes, cada passo que damos adiciona qualidade e estabilidade na prática na comunidade. Somos como Shariputra, Kashyapa, Badhya ou Kimbila – todos alunos do Buda. Vendo-nos o Buda ficará satisfeito e sorrirá.

 

O Buda sabe que se cada indivíduo na comunidade sabe como viver sozinho, a qualidade da vida na comunidade será excelente. Quando todos os membros da comunidade contribuem para esta qualidade, a comunidade tem fundações fortes, e muitas pessoas podem se beneficiar dela. Viver sozinho significa viver em plena consciência. Não significa se isolar da sociedade. Se soubermos a melhor maneira de viver sozinho, poderemos estar em real contato com as pessoas e a sociedade e saberemos o que fazer e o que não fazer para ajudar.

 

Se vivermos no esquecimento, se nos perdermos no passado ou no futuro, se nos permitirmos sermos revirados pelos nossos desejos, raiva ou ignorância, não estaremos aptos a viver cada momento de nossa vida profundamente. Não estaremos em contato com o que está acontecendo no momento presente e nas nossas relações com os outros se tornarão rasas e empobrecidas.

 

Alguns dias podemos nos sentir ocos, cansados e sem alegria, sem ser de verdade nós mesmos. Em tais dias, mesmo se tentarmos estar em contato com os outros, nossos esforços serão em vão. Quanto mais tentamos, mais falhamos. Quando isto acontece, deveríamos parar de tentar ficar em contato com o que está fora de nós e ficar sozinhos. Deveríamos fechar nossa porta para a sociedade, voltar a nós mesmos e praticar a respiração consciente, observando profundamente o que está acontecendo dentro de nós e à nossa volta. Aceitamos todos os fenômenos que observamos, dizendo “oi” para eles, sorrindo para eles. É bom fazer apenas coisas simples, como meditação sentada ou caminhando, lavar nossas roupas, limpar o chão, fazer chá e limpar o banheiro em plena consciência. Se fizermos essas coisas, recuperaremos a riqueza de nossa vida espiritual.

 

O Buda era alguém que vivia uma vida desperta, habitando constantemente no momento recente de uma maneira relaxada e estável. Havia sempre uma riqueza nele – a riqueza da liberdade, da alegria do entendimento e amor. Estivesse ele sentado num penhasco no Pico dos Abutres, em uma sombra do bosque dos bambus no monastério de Venuvana, ou sobre o teto de palha de sua cabana em Jetavana, Buda era Buda, sem agitação, contente e de poucas palavras.

 

Todos podiam ver que sua presença contribuía grandemente para a harmonia da comunidade. Ele era o principal pilar da comunidade. Para monges e monjas apenas saber que ele estava perto tinha uma grande influência na comunidade. Muitos estudantes do Buda, incluindo centenas de discípulos mais experientes, inspiravam confiança similar naqueles que os observavam. O rei Prasenajit de Kosala uma vez disse ao Buda que o que havia dado grande confiança a ele no Buda foi o modo sem pressa, calmo e alegre dos monges e monjas que estavam praticando sobre sua orientação.

 

Se vivermos em plena consciência, não seremos mais pobres, porque nossa prática de viver no momento presente nos faz ricos em alegria, paz, entendimento e amor. Mesmo quando encontramos alguém pobre em espírito, somos capazes de olhar profundamente e descobrir as profundezas dessa pessoa e ajudá-lo de uma maneira efetiva.

 

Quando observamos um filme não saudável ou lemos um romance ruim, se já somos pobres de coração e mente e fracos em plena atenção, este filme ou livro pode nos irritar e nos fazer ainda mais pobres. Mas se somos  ricos em plena atenção, descobriremos o que reside nas profundezas do filme ou do livro. Nós poderemos ser capazes de ver profundamente dentro do mundo interior da pessoa que dirigiu o filme ou escreveu o romance. Olhando com os olhos de um crítico literário ou de cinema, poderemos ver coisas que a maioria das pessoa não vê e assim, mesmo um livro ou filme ruim podem nos ensinar. Portanto não somos empobrecidos ao ler o romance ou ver o filme. Mantendo plena consciência em cada detalhe do momento presente, somos capazes de lucrar com eles. Esta é a melhor maneira de viver sozinho.

 

(Do livro “Our appointment with life”– Thich Nhat Hanh)

(Traduzido por Leonardo Dobbin)

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