Sangha Virtual

 Estudos Budistas

Tradi�‹o do Ven. Thich Nhat Hanh

 

Olhando e ouvindo em plena aten�‹o

 

Prestar aten�‹o a nossa inspira�‹o e expira�‹o afeta nossa respira�‹o. ƒ como projetar luz em um objeto. Mesmo que o objeto seja t‹o pequeno quanto uma part’cula elementar, a luz que iluminamos muda-o. Quando o objeto de observa�‹o Ž tocado pelo sujeito da observa�‹o, h‡ uma transforma�‹o. Quando acendemos nossa aten�‹o e come�amos a tocar nossa inspira�‹o e expira�‹o, podemos pensar que nossa respira�‹o mudou e que estamos trabalhando em nossa respira�‹o, em vez de deix‡-la fluir naturalmente. Mas se observarmos com mais cuidado, veremos que n‹o estamos realmente intervindo. Estamos simplesmente nos tornando mais conscientes da nossa respira�‹o e deixando que ela flua mais naturalmente.

 

Enquanto a nossa respira�‹o Ž agrad‡vel, sabemos que n‹o estamos trabalhando ou manipulando-a. Por favor, preste aten�‹o ao efeito de sua inspira�‹o e expira�‹o em seu corpo. Se a sua respira�‹o continua a lhe dar prazer, ent‹o voc� est‡ fazendo isso corretamente. Ës vezes sua inspira�‹o se torna mais longa e profunda. Apenas permita que isso aconte�a. Voc� n‹o precisa se esfor�ar. Se voc� fizer um esfor�o, poder‡ perturbar sua sensa�‹o de bem-estar. Apenas permita que sua respira�‹o traga mais bem-estar e prazer ao seu corpo e consci�ncia.

 

N‹o precisamos praticar todos os dezesseis exerc’cios propostos pelo Buda de uma s— vez ou em ordem consecutiva. Se entendermos a natureza mais profunda dos dezesseis exerc’cios e por que eles foram propostos, saberemos quais precisamos fazer. Quando come�amos nossa medita�‹o sentada, praticamos os primeiros exerc’cios para trazer estabilidade e bem-estar ao nosso corpo e mente. Ent‹o selecionamos um exerc’cio apropriado ao nosso estado de ser. Se precisarmos fazer um exerc’cio diferente, podemos parar o que estamos fazendo e come�ar outro. Esta Ž uma pr‡tica inteligente.

 

Sabemos como cuidar e atender ˆs necessidades do nosso corpo, nossos sentimentos e nossas forma�›es mentais. O caractere chin�s para aten�‹o plena _ Ž composto pelos caracteres ÒagoraÓ e ÒmenteÓ. N—s trazemos nossa mente para o agora, o momento presente. A parte superior do caractere significa "momento presente" e a parte inferior significa "mente". Ao reuni-los, criamos aten�‹o plena. A mente volta ao momento presente para estar ciente do que est‡ acontecendo naquele momento. Quando a mente retorna ao momento presente, ela tambŽm retorna ao corpo; corpo e mente est‹o unidos. N—s s— precisamos praticar inspirando e expirando uma vez para alcan�ar a unidade do corpo e da mente. Ent‹o estamos bem estabelecidos no momento presente. N—s nos tornamos mais reais e vivos porque estamos totalmente presentes. ƒ por isso que a respira�‹o consciente Ž t‹o maravilhosa. N‹o Ž o œnico caminho, mas Ž um caminho maravilhoso. Respirar Ž a ponte entre corpo e mente.

 

A aten�‹o plena pode ser cultivada pelos nossos ouvidos, olhos, pŽs e respira�‹o. Quando praticamos a medita�‹o andando, vemos a pessoa ˆ nossa frente caminhando atenta e lindamente. Se n‹o estamos atentos e nos perdemos em nosso pensamento, a vis‹o de nosso co-praticante andando de forma pac’fica e feliz nos lembra de voltar e produzir a aten�‹o plena em n—s mesmos. Precisamos saber como usar nossos olhos para nutrir nossa aten�‹o plena. Quando entramos em um templo, os objetos, a arquitetura e o jardim est‹o todos dispostos para nos ajudar a retornar ˆ nossa aten�‹o plena. O verdadeiro artista cria oportunidades para nos fazer voltar e dar ˆ luz a aten�‹o plena. AlŽm disso, os sons - como o som de um sino ou do canto - podem reviver nossa energia da aten�‹o plena.

 

N—s tambŽm podemos fortalecer nossos olhos e us‡-los para olhar atentamente. Olhando atentamente, vamos ver mais profundamente. Eu posso olhar para a minha m‹o com ou sem aten�‹o plena. A melhor maneira Ž olhar atento; isso traz concentra�‹o e me ajuda a ter insight e ver o objeto mais profundamente. O que vemos pode fortalecer nossa aten�‹o plena, e a aten�‹o plena tambŽm nos ajuda a enxergar mais conscientemente. Nossos olhos e a plena aten�‹o ajudam um ao outro.

 

O mesmo acontece com o som. Quando ouvimos os c‰nticos, isso nos ajuda a voltar para n—s mesmos e cultivar a energia da aten�‹o plena no caminho da emancipa�‹o interior. Quando temos aten�‹o plena, come�amos a ouvir mais atentamente. Quando ouvimos mais atentamente, entendemos melhor e mais profundamente. Aqueles de n—s que praticam a aten�‹o plena devem cultivar a arte de olhar e ouvir profundamente. A escuta consciente Ž uma pr‡tica importante que pode aliviar muito sofrimento. Os psicoterapeutas deveriam adquirir a arte da escuta profunda. Sem boa escuta, voc� n‹o pode ser um bom terapeuta. Para ouvir profundamente, voc� tem que trazer sua mente de volta ao seu corpo e perceber a unidade do corpo e da mente. A respira�‹o consciente Ž um dos meios pelos quais voc� pode estar totalmente presente para seu cliente, com corpo e mente unidos.

 

Se voc� est‡ atento e presente, a qualidade da sua audi�‹o ser‡ boa. N—s chamamos isso de escuta atenciosa, consciente, profunda ou compassiva. Voc� est‡ disposto a ajudar a outra pessoa. Sabe que ele ou ela sofre profundamente e n‹o tem ninguŽm que o escute. Voc� pode ser a primeira pessoa que est‡ disposta a ouvi-lo. Se voc� est‡ obcecado com seus pr—prios problemas, arrastado para o passado ou sugado para o futuro, n‹o pode realmente estar presente para a pessoa que precisa de sua ajuda. Os terapeutas podem carregar muito sofrimento dentro de si. Se o terapeuta n‹o cultivar a compaix‹o, a concentra�‹o e a aten�‹o plena dentro de si, ent‹o o cliente pode tocar a semente do sofrimento no terapeuta e faz�-lo sofrer mais. Ent‹o a qualidade de sua escuta ser‡ fraca. Um terapeuta deve praticar estar completamente presente e cultivar a energia da compaix‹o para ser œtil. ƒ absolutamente necess‡rio ter a energia da compaix‹o para que possamos ouvir com empatia.

 

 

(Do livro ÒThe Path of EmancipationÓÐ Thich Nhat Hanh)

(Traduzido por Leonardo Dobbin)

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