Sangha
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Estudos Budistas
Tradição
do Ven. Thich Nhat Hanh
Os dois desejos mais profundos
Dentro de cada um de nós, há um desejo profundo. Na verdade, dois desejos profundos. Quando estes dois desejos profundos são satisfeitos, sentimos muita alegria e muita felicidade.
O primeiro desejo profundo é o desejo de compreender. Compreender significa ter uma compreensão correta, visões corretas, percepções profundas. A nossa potencialidade, a nossa semente de compreensão— deseja ser satisfeita. É a nossa curiosidade. Desejamos aprender, saber, compreender. Porque a vida é um milagre, é um mistério. O nosso próprio corpo é também é um mistério, um milagre.
Existe um ramo da ciência chamado anatomia. Estudaram os olhos, o nariz, e tudo o que pertence ao corpo humano, mas ainda não compreendemos completamente esse milagre. Os olhos precisam de um instituto chamado "instituto de investigação ocular", que estuda os olhos. Os ouvidos precisam de uma fundação de investigação auditiva. O nariz precisa de um departamento de investigação olfativa. Existem muitos centros de investigação que estudam diferentes partes do corpo.
Até agora, já descobrimos alguns milagres do corpo humano. Mas essas descobertas sobre como diferentes áreas do corpo funcionam são feitas separadamente. Entretanto, a forma como tudo no corpo funciona é em sintonia, como um todo, e a maneira como tudo flui, ainda é um grande mistério. É ainda mais em relação à nossa mente.
A mente também é um grande mistério, um milagre. O Budismo também é uma ciência que estuda a mente, chamada de ciência da mente. Portanto, quando praticamos a atenção plena, nutrimos este desejo profundo de compreensão. O desejo profundo de compreensão. O desejo profundo de compreender profundamente a realidade.
Por exemplo, queremos compreender os nossos cinco agregados. Essa compreensão dos cinco agregados traz uma sensação de satisfação. Pode dissipar toda a escuridão e os equívocos que temos em relação aos cinco agregados. Aquele tipo de escuridão que antes nos causava sofrimento, a nós e aos outros.
Por isso, esta compreensão não é uma compreensão vazia. Esta compreensão tem o poder de transformar, libertar e curar. Essa compreensão é chamada prajñā— bát nhã em vietnamita, sabedoria em português. É um desejo muito profundo. Há muito tempo, Siddhartha quis tornar-se monge por causa deste desejo profundo de compreensão.
Esta compreensão não é apenas a compreensão intelectual. É uma compreensão com poder de libertar, transformar e curar. Portanto, bem no fundo de cada um de nós, existe este grande desejo.
Precisamos reservar tempo para satisfazer esse desejo, em vez de perseguirmos outros tipos de desejos que não são tão importantes— os desejos mundanos, que procuram conforto material ou conforto emocional.
Se gastarmos todo o nosso tempo satisfazendo desejos de conforto material e emocional, não teremos tempo nenhum para satisfazer este desejo pela Grande Compreensão. O que chamamos de Grande Compreensão, em sânscrito, é Mahāprājña. Mahā significa grande, e prājña significa compreensão.
Depois, temos também outro desejo igualmente profundo: o do Grande Amor. O Grande Amor não é o amor egoísta, centrado no eu. Não é aquele amor que se preocupa apenas com uma, duas, ou três pessoas— com o cônjuge, parceiro(a) ou filhos.
O Grande Amor é o tipo de amor que pode abraçar todos os seres por igual. Em cada um de nós, existe essa potencialidade, essa semente. Essa potencialidade, essa semente, quer ser satisfeita. Quanto mais satisfeita estiver, maior será a nossa felicidade.
Este amor gera felicidade. Quanto mais amamos, mais felizes somos. Este tipo de amor é chamado Mahāmaitrī e Mahākaruṇā, ou seja, Grande Benevolência e Grande Compaixão.
Por outro lado, no tipo de amor comum, quanto mais se ama, mais se sofre. Quanto mais se ama, mais se entra em complicações. Quanto mais se ama, mais se apega, mais se agarra. Quanto mais se ama, mais se é corroído por dentro. Quanto mais se ama, mais medo e preocupação se sente. Esse tipo de amor é chamado de “amor pequeninho”, que não é feito da mesma substância que o grande amor. É o amor egoísta, centrado no eu. É o amor apaixonado. É o amor discriminatório, parcial.
Enquanto isso, o objeto do grande amor é vasto, amplo. Não é discriminatório. Mesmo quando cuidamos de nós próprios, isso não é egoísmo, porque sabemos que ao fazer algo por nós, ao cuidarmos bem de nós, estamos cuidando da outra pessoa ao mesmo tempo.
Estarmos bem, estarmos em paz, é algo essencial para quem amamos. Portanto, proteger e respeitar o nosso corpo, e proteger e respeitar a nossa paz interior e felicidade é muito importante para quem nos ama. Isso está dentro do âmbito do Grande Amor.
Deixa de ser egoísmo ou egocentrismo. Porque fazemos isso não só por nós, mas também por quem amamos. Quando cuidamos de outras pessoas, também estamos cuidando de nós. Porque, se os outros sofrem menos, se conseguem sorrir, nós também somos felizes.
Por isso, o Grande Amor não é discriminatório nem parcial. Não tem limites. Já o amor apaixonado e agarrado é discriminatório. Tem apenas uma pessoa como “ser amado” e o resto não é.
“O Compreendedor Perfeito, que surge no mundo Saha, tem um coração que abarca todo o cosmos.” Isto significa que o coração do Buda pode conter e abraçar o universo inteiro. Se o nosso coração é minúsculo e só consegue conter uma pessoa— provavelmente nem consegue conter essa totalmente— então isso é discriminação.
Por isso, sabemos que a verdadeira felicidade está em saber se conseguimos satisfazer, todos os dias, estes dois desejos fundamentais e profundos do nosso coração: o desejo de compreensão e o desejo de amor— o desejo de Grande Compreensão e o desejo de Grande Amor.
(Palestra de Darma de Thich Nhat Hanh: em 28 de setembro de 2003– transcrito do vídeo do YouTube
https://youtu.be/dJBwL_1CZcQ)
Traduzido por Leonardo Dobbin)
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