Sangha Virtual

 Estudos Budistas

Tradi�‹o do Ven. Thich Nhat Hanh

 

Regando nossas sementes positivas

 

Como mencionei antes, todos n—s recebemos sementes positivas e negativas de nossos pais e ancestrais. Alguns de n—s foram abusados __quando crian�as - tratados violentamente pelos nossos pais e sofremos muito. N—s sinceramente juramos nunca nos comportar como nossos pais quando cresc�ssemos. Mas se n‹o soubermos como transformar nossa energia negativa, trataremos nossos filhos exatamente como nossos pais nos trataram.

 

Eu j‡ vi isso acontecer muitas vezes. Quando crian�a, voc� sofreu porque seus pais te decepcionaram e abandonaram voc�. A crian�a ferida em voc� ainda est‡ viva. Voc� est‡ vulner‡vel e com medo de que seus amigos, parceiros e outras pessoas tambŽm o decepcionem. Voc� conhece a dor de ser abandonado e n‹o quer que outras pessoas sofram como voc�. No entanto, se voc� n‹o souber como curar a crian�a ferida ou transformar suas sementes negativas, far‡ com que seus filhos e amigos sofram como voc� sofreu. Vai culpar as pessoas por terem feito voc� sofrer.

 

Voc� sabe que n‹o Ž bom abusar das pessoas, desiludi-las, exclu’-las e ferir a crian�a j‡ ferida, mas voc� ainda faz isso. Se seus filhos n‹o tiverem a chance de estar com uma Sangha e encontrar um bom professor, eles podem n‹o ser capazes de transformar essa semente em si mesmos, e eles a transmitir‹o para seus filhos. Este Ž o ciclo vicioso chamado samsara. Praticar significa cortar esse ciclo e acabar com ele. Devemos reconhecer nossas afli�›es negativas - nossos elementos negativos - e perceber que elas est‹o presentes na base de nossa consci�ncia. Temos que intervir e praticar para que haja verdadeira transforma�‹o, n‹o apenas al’vio tempor‡rio. Isso Ž transforma�‹o na base e pode ser alcan�ada de duas maneiras.

 

O primeiro caminho Ž a contempla�‹o direta da natureza de uma semente. N—s convidamos a semente do sofrimento a emergir. Se j‡ cultivamos a energia da aten�‹o plena, n‹o ser‡ dif’cil convidar a semente para cima, abra�‡-la e olhar profundamente para sua natureza. Este Ž o caminho direto para desintegr‡-la. Somente a luz da percep�‹o e compreens‹o pode transformar nossas sementes de afli�‹o.

 

A segunda maneira Ž indireta e igualmente efetiva. N—s semeamos e regamos nossas sementes positivas. Ao invŽs de convidar a semente para abra�‡-la e olhar profundamente para ela, n—s a deixamos onde est‡ e fazemos outras coisas para ajudar na sua transforma�‹o. Podemos fazer isso individualmente ou como uma Sangha. Tocar os elementos positivos, refrescantes e curativos da vida todos os dias Ž uma pr‡tica agrad‡vel que pode levar ˆ cura e ˆ transforma�‹o.

 

Sa’ do Vietn‹ em 1966 para o Ocidente pedir paz. Eu n‹o tive mais permiss‹o para voltar para casa. As duas partes em guerra estavam com raiva de mim por ousar falar a verdade sobre a natureza da guerra. A maioria de n—s no Vietn‹ n‹o era a favor da guerra e queria que ela acabasse. N—s Žramos suas v’timas. N‹o quer’amos que as pessoas em nosso pa’s se matassem. Mas nossa voz foi perdida entre as bombas e morteiros. Ës vezes nos queimamos vivos na esperan�a de que nossa voz fosse ouvida no exterior.

 

N—s fomos reprimidos e desesperados quer’amos que as pessoas nos ouvissem. N‹o t’nhamos meios de tornar nosso sofrimento entendido ou nossa voz ouvida. Ent‹o convertemos nossos corpos em tochas para capturar a aten�‹o das pessoas e deix‡-las saber o que realmente quer’amos - n‹o a vit—ria, mas uma r‡pida cessa�‹o do assassinato. Sa’ do Vietn‹ para poder falar em nome da maioria do meu povo que n‹o apoiou a guerra e queria impedir a matan�a. Por causa disso, n‹o pude voltar para casa.

 

Tornei-me um exilado no in’cio de junho de 1966. Naquela Žpoca, todos os meus amigos, meu trabalho, tudo estava no Vietn‹ - a Escola da Juventude para o Servi�o Social, a revista Buddhist Weekly, a Universidade Budista Van Hanh. Foi muito dif’cil estar longe. Houve momentos em que acordei ˆ noite e n‹o sabia onde estava, porque estava viajando para muitas palestras. Eu sempre sonhei em voltar para casa, para o meu mosteiro, para ver meus amigos, meus irm‹os, irm‹s e colegas de trabalho. Em um sonho recorrente, via uma bela colina verde com muitas ‡rvores ador‡veis. Depois de subir a metade do morro, sempre acordava e me via no ex’lio. Foi um per’odo dif’cil para mim e tive esse sonho repetidas vezes.

 

Adotei a Europa como minha casa. Naquela Žpoca, a AmŽrica estava em guerra com o Vietn‹, ent‹o n‹o havia op�‹o de ficar na AmŽrica. Tudo na Europa era diferente - as ‡rvores, as frutas, os p‡ssaros e as pessoas. Eu pratiquei andando, respirando e tocando as maravilhas da vida que me rodeavam. Eu brinquei com as crian�as francesas e alem‹s. Eu fiz amizade com padres cat—licos e ministros protestantes. Eu aprendi a comer comida ocidental - p‹o em vez de arroz. Percebi que as montanhas, rios, pessoas e crian�as na Europa eram lindas. Eu sobrevivi por causa dessa pr‡tica. Gradualmente, reguei minhas sementes de felicidade. Um dia percebi que meu sonho recorrente havia parado. Eu n‹o estava mais amargurado em rela�‹o ao meu ex’lio e n‹o sofria mais por causa disso.

 

Agora posso dizer que n‹o sinto mais falta da minha casa, porque posso ver meu pa’s e meu povo dentro do meu corpo e consci�ncia. Eu estou praticamente l‡ ao mesmo tempo em que estou aqui. Amigos que foram ao Vietn‹ me disseram que eu estou presente no Vietn‹; meus ensinamentos e meus livros encontraram o caminho de volta ao Vietn‹. Meus livros s‹o publicados no subterr‰neo, e minhas fitas - atŽ mesmo fitas de v’deo - eu n‹o sei como - est‹o l‡. Muitas das gera�›es mais jovens de monges e monjas ouvem meus ensinamentos lendo meus livros. O sofrimento e a amargura de 1966 n‹o est‹o mais comigo. Isto n‹o Ž porque eu convidei a semente do sofrimento para subir e olhei diretamente para ela, mas porque eu tenho praticado regar as sementes da felicidade. Eu continuo a reconhecer o que Ž bonito, refrescante e curador ao meu redor.

 

Quando voc� ajuda suas sementes positivas e saud‡veis __a crescer, elas se modificam e transformam suas outras sementes. Eles s‹o como anticorpos em torno de um corpo estranho. Eles cuidam, cercam e transformam a semente negativa. Nossas sementes s‹o impermanentes e podem mudar a qualquer momento. Se soubermos plantar sementes da natureza oposta, poderemos ajudar nossas sementes saud‡veis __e refrescantes a crescer. Elas v‹o abra�ar nossas sementes negativas e ajudar a transform‡-las. Isso explica por que meu sonho desagrad‡vel parou por conta pr—pria.

 

(Do livro ÒThe Path of EmancipationÓÐ Thich Nhat Hanh)

(Traduzido por Leonardo Dobbin)

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